paris street scene

Carolyn Burke


No Regrets:
The Life of Edith Piaf

A vida nada rosa de Edith Piaf

Ivan Claudio, Revista ISTOÉ Independente (Brazil)
19 de outubro, 2011


A grande voz da música popular foi abandonada pela mãe, criada em um bordel, dependente química e infeliz no amor. Mas tinha uma grande capacidade de superação.

piafEMOÇÃO: Piaf em foto de Maurice Seymour, de 1955: dores curadas com morfina

A cantora Edith Piaf (1915–1963), "a voz" da França, foi a Amy Winehouse de sua época. Como Amy, a intérprete de "La Vie en Rose" morreu relativamente jovem (47 anos), vítima de uma equação mal resolvida e de variáveis clássicas: infância de abandono e privações, decepções amorosas e fuga no alcoolismo e nas drogas. Isso tudo é sabido — a própria Piaf tratou desses assuntos em dois livros "ditados" a escritores.

A novidade da biografia "Piaf — Uma Vida" (Leya) é que a autora, Carolyn Burke, tenta desfazer o clichê do gênio consumido pela própria chama e traçar um perfil de uma artista disciplinada cuja luta pela sobrevivência — e pelo sucesso na carreira — falou mais alto que o impulso autodestrutivo.

Só mesmo a força vital e criativa justifica a superação de tantos obstáculos: filha de um contorcionista e de uma cantora de cabaré que a trocou pela boêmia, Piaf foi criada no prostíbulo de sua avó e, quando o seu pai percebeu que ela tinha uma voz acima do normal, passou a utilizá-la em seus espetáculos mambembes. A convivência com o universo de párias sociais ajudou a sua emancipação precoce. Aos 16 anos, lá está o pequeno pardal (significado de Piaf) vivendo sozinha com uma amiga e cantando em espeluncas de Pigalle, a "zona ver­melha" de Paris. Casou-se com um entregador (de quem logo se separou), teve uma filha que morreu aos dois anos de meningite (moléstia mortal na época) e buscou abrigo nos braços de um cafetão, Ali-Babá, cujo comparsa atendia pelo nome de Tarzan. Ao ouvir dele que mulher de bandido tem que "rodar a bolsinha", Piaf respondeu que conhecia uma forma mais rentável de trabalhar nas ruas. Ou seja: cantando.

piafINTIMIDADE: Piaf com a amiga Marlene Dietrich: segundo a atriz, ela se achava feia e insegura, mas tinha um charme ao qual os homens não resistiam

Nesses primeiros tempos, ela tinha rendas extras, tipo "colecionar rolhas": fazia companhia a homens solitários e os incentivava a entornar garrafas e garrafas de champanhe. Ganhava depois pelas rolhas acumuladas. Embora evitasse falar desse período, segundo Carolyn a cantora chegou a se prostituir. Precisava de dez francos para custear o enterro de sua filhinha; e o cliente, sensibilizado, pagou mais.

Movida pela impulsividade que a fazia afastar-se de pessoas negativas, Piaf logo saiu desse ambiente – em direção à fama. Faz parte da mitologia moderna o encontro da cantora com o dono de cabaré Louis Leplée, que a viu cantando numa esquina, deu-lhe cinco francos e um palco iluminado. Daí para a plateia seleta do Playhouse de Nova York, em 1947, quando foi paparicada por Gene Kelly, Greta Garbo e Marlene Dietrich, não foi mais uma questão de sorte. Apesar de detestar a companhia feminina, Piaf ficou íntima de Marlene. Segundo a atriz alemã, ela se achava feia e insegura, mas "seu carisma era tão grande que podia ter qualquer homem que quisesse". E foram muitos.

Um deles marcou a sua vida e a deixou devastada quando morreu num acidente de avião: o lutador de boxe Marcel Cerdan. Ela passou a exagerar na bebida e a se drogar com morfina, vício adquirido para aplacar as dores após dois acidentes de carro. Ao final, com muitas complicações, voz falha e aparência de "mariposa agonizante", começou a esquecer letras de músicas que conhecia de cor. Entre elas o seu hino: "Não me Arrependo de Nada".

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No Rosy Life for Edith Piaf

By Ivan Claudio, Revista ISTOÉ Independente (Brazil)
October 19, 2011


The great voice of popular music was abandoned by her mother, raised in a brothel, an addict unlucky in love. But she had a great capacity to overcome.

piafEMOTION: Piaf in photo by Maurice Seymour, 1955: pain alleviated by morphine

The singer Edith Piaf (1915–1963), "the voice" of France, was the Amy Winehouse of her day. Like Amy, the singer of "La Vie en Rose" died at a relatively young (age 47), the victim of unresolved situations and classic variables: a childhood of neglect and deprivation, heartbreak, and escape in alcohol and drugs. This is all well known — Piaf herself addressed this subject in two books "dictated" to the writers. The novelty of the biography "Piaf — A Life" (Leya) is that the author, Carolyn Burke, tries to undo the cliché of genius consumed by its own flame, and profiles a disciplined artist whose struggle for survival — and success in her career — spoke louder than the self-destructive impulse. But many obstacles were overcome; the daughter of a contortionist and a cabaret singer who left her for a bohemian life, Piaf was set up at the brothel of her grandmother, and when her father realized that she had a special voice, he began to use it in their rickety shows. Living in a world of social outcasts aided her early emancipation. At 16, the little sparrow, Piaf in French, was living on her own with a friend and singing in the dives of Pigalle, the "red-light district" of Paris. She married a deliveryman (they soon broke up), had a daughter who died of meningitis (a deadly disease at the time) at age two, and sought shelter in the arms of a pimp, Ali Baba, whose gang was called Tarzan. Upon hearing that the wife of this villain had to "turn tricks," Piaf said she knew a more profitable way to work the streets: by singing.

piafINTIMACY: Piaf with her friend Marlene Dietrich: according to the actress, she felt ugly and insecure, but had a charm that men could not resist

In those early days, she gained extra income from "collecting corks": convincing lonely men to buy bottle after bottle of champagne. Money was earned after the corks accumulated. Although she avoided talking about that period, according to Carolyn the singer became a prostitute. Ten francs was needed to pay for the burial of her daughter, and the customer, aware of this, paid more. Struggling to escape her bad circumstances, Piaf left that environment — to fame. A modern legend describes her meeting with the cabaret owner Louis Leplée, who saw her singing on a street corner, gave her five francs and a lighted stage. Her appearance at the Playhouse in New York in 1947, where she was doted on by Gene Kelly, Greta Garbo and Marlene Dietrich, was no longer a matter of luck. Despite avoiding female companionship, Piaf became intimate with Marlene. According to the German actress, she felt ugly and insecure, but "her charisma was so great she could have any man she wanted." And there were many. One left her devastated when he died in a plane crash, the boxer Marcel Cerdan. She indulged in alcohol, and became addicted to morphine, taken to appease the pain from two car accidents. In the end, with many complications, a cracking voice, and the appearance of a dying butterfly, she began to forget lyrics she had known by heart, among them "Non, je ne regrette rien."

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The great love and the naïf:

Marcel Cerdan - The boxer, of Algerian origin, was married. His death in a plane crash, on his way to see Piaf in New York, left the singer devastated. She wrote "Hymne à l'amour" in his honor.

Yves Montand - Piaf met the singer when he was 23 and was inspired to create the verses of "La vie en rose." She was hurt when, after achieving success at her expense, Montand broke off the relationship with a telegram.